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AVISO LEGAL e o Que são Doenças Raras

✔ Doenças Raras Doem® - A palavra doença é derivada do latim dolens, ēntis no sentido de que se aflige, que causa dor, padecimento. É o distúrbio das funções de um órgão, da psique ou do organismo como um todo e está associado a sinais e sintomas específicos.

As informações disponibilizadas nesta página devem ser utilizadas apenas para fins informacionais, não podendo, jamais, serem utilizadas em substituição a um diagnóstico médico por um profissional habilitado. Os autores deste site se eximem de qualquer responsabilidade legal advinda da má utilização das informações aqui publicadas.

As DRs - Doenças Raras - são caracterizadas por uma ampla diversidade de sinais e sintomas e variam não só de doença para doença, mas também de pessoa para pessoa acometida pela mesma condição.
 
O conceito de DR, segundo a OMS - Organização Mundial de Saúde, são doenças que afetam até 65 pessoas em cada 100 mil indivíduos, ou seja, 1.3 para cada 2 mil pessoas.
 
Existem de seis a oito mil tipos de Doenças Raras, em que 30% dos pacientes morrem antes dos cinco anos de idade; 75% delas afetam crianças e 80% têm origem genética. Algumas dessas DRs se manifestam a partir de infecções bacterianas ou causas virais, alérgicas e ambientais, ou são degenerativas e proliferativas.
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XP - Xeroderma Pigmentoso


XPXeroderma Pigmentoso é uma genodermatose rara, de caráter autossômico recessivo que combina uma extrema sensibilidade à radiação UV a uma falha na excisão e reparo do DNA. Tais fatores somados promovem um conjunto de anormalidades cutâneas, traduzidas por graus variáveis de atrofia, queratose, hiperpigmentação e neoplasias em áreas expostas à luz solar, bem como alterações oculares e neurológicas. Neste artigo os principais aspectos clínicos relacionados ao XP são revistos.

XP é uma fotogenodermatose na qual ocorre grande sensibilidade à radiação UV, bem como alterações no processo de reparação do DNA, promovendo estas, em conjunto, distúrbios na pigmentação cutânea com aparecimento de lesões distróficas suscetíveis de se transformarem em cânceres cutâneos. São comuns também problemas oculares e neurológicos, sendo em muitos casos a fotofobia o primeiro sintoma perceptível.


Descrito inicialmente por Kaposi, em 1870, foi denominado XP ou “Pele Apergaminada”. Doze anos mais tarde se incorporou o termo “Pigmentosum”, enfatizando os marcantes distúrbios da pigmentação. Neisser, em 1883, descreveu pela primeira vez um caso clínico de dois irmãos acometidos pelo XP com alterações neurológicas concomitantes(6,10,11). Quase meio século depois, em 1932, Carlo DeSanctis e Aldo Cacchione descreveram um caso de “idiopatia xerodérmica progressiva” ocorrendo em três irmãos, com manifestações clínicas compatíveis com XP somadas à degeneração progressiva e retardo no desenvolvimento físico e sexual. Mais tarde se introduziu o termo Síndrome de DeSancti-Cacchione para designar o quadro de hipogonadismo, atraso no desenvolvimento pôndero-estatural e alterações neurológicas.

Genética da doença:

XP é uma doença rara, com frequência estimada de 1 afetado para cada 200.000 indivíduos. Apresenta padrão de herança autossômico recessivo, e, portanto, para qualquer casal com uma criança afetada, o risco de que uma segunda criança venha a apresentar XP é de 25%.

Esta doença caracteriza-se por grande heterogeneidade clínica e é causada principalmente por mutações em genes envolvidos no reparo de DNA: XPA, ERCC3, XPC, ERCC2, DDB2, ERCC4 e ERCC5, que constituem respectivamente os grupos de complementação XP-A a XP-G. Além destes, a forma variante XP-V foi associada a mutações no gene POLH, envolvido na síntese de DNA.

Dependendo do gene afetado e do tipo de mutação, o quadro clínico pode ser mais leve ou grave. 


Quadro Clínico: 

Pacientes com XP apresentam alta sensibilidade de pele, sobretudo nas regiões expostas à luz solar. As lesões cutâneas estão presentes nos primeiros anos de vida e evoluem lenta e progressivamente. Os primeiros sinais clínicos são eritemas (vermelhidão da pele), descamação, hiperpigmentação difusa e lesões cutâneas que se assemelham a sardas. A evolução das lesões cutâneas leva, com grande frequência, ao aparecimento de ceratoses actínicas (lesões pré-malignas), seguidas de câncer de pele, mais comumente carcinomas (basocelulares e espinocelulares) e melanomas. Além de alterações oftalmológicas, em cerca de 20% dos pacientes pode ocorrer comprometimento neurológico, incluindo problemas de desenvolvimento.


Epidemiologia

O XP é uma doença rara, cuja incidência na população mundial é de 2 a 4 casos por milhão. Tais valores sofrem ampla variação geográfica. Nos EUA, por exemplo, o número de casos é reduzido a um por milhão. No entanto, em outras regiões como Norte da África (Tunísia, Argélia, Marrocos, Líbia e Egito), Oriente Médio (Turquia, Síria e Israel) e Japão a incidência sobe para cerca de 10 a 15 casos por milhão, particularmente em comunidades onde o casamento consanguíneo é comum.

Atinge indistintamente a ambos os sexos, podendo surgir em qualquer raça, sendo a doença normalmente detectada antes dos 12 anos de idade. Conforme descrito por Kraemer, no Brasil, entre 1953 e 1995 foram reportados 48 casos de pacientes com XP 15 deles tiveram acompanhamento médico, sendo que em oito destes a consanguinidade esteve presente. Todos apresentaram carcinoma espinocelular e 14 basocelular oito apresentaram melanoma maligno. Esporcatte et al. relataram também o caso de três irmãos da raça negra, procedentes de uma área rural do Estado do Rio de Janeiro, acometidos pela doença. A idade dos pacientes era de 3, 5 e 13 anos, respectivamente.

Kraemer e cols. fizeram um estudo retrospectivo entre 1874 e 1987, ou seja, 108 anos, sobre 830 casos de XP, que foram publicados em 297 artigos. Observaram que a idade média destes pacientes era de 12 anos, havendo ligeiro predomínio da incidência no sexo masculino em 54% dos casos. Os autores determinaram ainda probabilidade de sobrevivência dos pacientes com a doença, sendo de 90% para pacientes de até 13 anos, 80% para pacientes de até 28 anos e 70% para pacientes de até 40 anos. De um modo geral, a expectativa de vida dos portadores de XP está reduzida em 30 anos.

O câncer de pele representa a maior causa de mortalidade nestes pacientes.

A idade média de aparecimento da primeira lesão cancerosa (mais comumente carcinomas baso e espino celulares) é por volta dos oito anos, ao passo que na população geral é aos 58 anos. Pacientes com XP e idade inferior a 20 anos possuem risco aumentado em 2.000 vezes de desenvolverem melanoma.


Fisiopatogenia

O amplo espectro clínico das manifestações do XP, bem como seu prognóstico levam à suposição da existência de uma heterogeneidade genética, além de um perfil imunológico próprio para cada tipo. Em 1968, Cleaver esclareceu o mecanismo dessa sensibilidade anormal do tegumento cutâneo em indivíduos com XP às radiações UV. Observou-se in vitro que fibroblastos provenientes destes pacientes apresentavam defeito de reparação por excisão dos dímeros de pirimidina formados no DNA celular. Em cadeias de DNA expostas à radiação UV surgem ligações anormais entre as bases tímicas, processo que origina dímeros defeituosos. Estes podem ser removidos através de reações enzimáticas produzidas por uma exonuclease e uma endonuclease. Quando tal aparato enzimático se encontra defeituoso, não ocorre replicação do DNA, situação verificada por Cleaver no XP, doença na qual há defeitos na reparação do DNA associados à deficiência de uma endonuclease específica. 

Em 1972, Robbins e cols. e Cleaver e cols. demonstraram, através da hibridização celular, a heterogeneidade do defeito molecular nesta doença. Fibroblastos de diferentes pacientes com XP expostos à radiação ultravioleta mostravam sínteses normais ou praticamente normais de “síntese anormal de DNA”. Isso quer dizer que, com a fusão, cada célula complementava o defeito da outra as várias células apresentavam defeitos diferentes, pertencendo, portanto, a grupos complementares genéticos diferentes. Atualmente são sete grupos complementares identificados: XP-A até XP-H, com defeito primordial na reparação de DNA e o grupo variante XP-V, no qual o defeito ocorre na reparação pós-replicativa. Existe uma correlação fenótipo-genótipo: os grupos A e C têm maior frequência para desenvolver neoplasias cutâneas, os grupos D e F frequência intermediária e os grupos B, E, H são mais raros. Esta frequência tem relação com a capacidade de reparo do DNA, sendo menor no grupo A (cerca de 2%) e maior no grupo D (cerca de 25% a 30%), conforme citado por 5: Rodríguez-Garcia e cols., em artigo publicado, em 2002, na Revista Mexicana de Pediatria.

Há ainda outras alterações celulares que contribuem para as manifestações clínicas da doença: aumento das anormalidades cromossômicas, troca de cromatina e diminuição do tempo de vida celular. A presença de necrose em tecidos não expostos à radiação ultravioleta sugere que as alterações celulares nesses pacientes não são devido a somente erros na reparação do DNA, mas podem ser decorrentes de mutações provocadas por radicais livres ou outros agentes mutagênicos.

Em adição ao defeito de reparo no DNA, a radiação ultravioleta também provoca efeitos imunossupressores envolvidos na patogênese do XP. Ainda que sintomas típicos de imunodeficiência (como infecções de repetição) não sejam usualmente observados nos pacientes, muitas anormalidades imunológicas são descritas. Estudos clínicos revelam na epiderme de doentes com XP depleção das células de Langerhans induzidas pelos raios ultravioleta. Há ainda redução na atividade das células natural killer, bem como prejuízo na produção de interferon pelos linfócitos.


Manifestações clínicas

O XP apresenta um amplo espectro de manifestações clínicas, decorrentes do tipo de grupo complementar ao qual pertence a doença, tendo esta evolução variável e prognóstico sempre agravado pelo surgimento de neoplasias.

O XP apresenta três etapas evolutivas e morfológicas: na primeira fase ou fase eritêmato-pigmentária há eritema, edema e ocasionalmente vesículas, todos decorrentes da reação exacerbada do tegumento cutâneo à radiação UV. Posteriormente, aparecem abundantes manchas lenticularaes cor de café, com tendência a confluírem. Na segunda etapa ou fase atrófica-telangectásica essas lesões se acompanham de adelgaçamento do nariz, mutilação dos pavilhões auriculares, presença de verrucosidades e ceratoses actínicas que conferem o aspecto poiquilodérmico à doença, além de cicatrizes viciosas que podem provocar atresias nasais, labiais e ectrópio. A terceira etapa, ou tumoral, é marcada pela presença de neoplasias epidérmicas, tais como basaloides e epidermoides (particularmente presentes em áreas nas quais se encontravam lesões ceratósicas ou atróficas), sarcomas, melanomas, sendo este último de aparecimento mais tardio (média de dez anos após surgimento dos epitelomas), além de diferentes neoplasias benignas.

No trabalho de Kraemer e cols. 259 pacientes apresentaram simultaneamente dois tipos de neoplasias, sendo que em 97% dos casos a localização dos tumores ocorreu no segmento cefálico e pescoço, naturalmente devido à maior incidência das radiações nestas regiões. Quanto ao melanoma, este ocorreu em 37 dos 830 pacientes estudados, ou seja, 5% do total de casos.


Manifestações orais

Tanto a pele da cavidade oral como a de qualquer outra área da face estão sujeitas à atrofia decorrente das excessivas exposições solares. Em alguns pacientes com XP esta atrofia pode resultar em espessamento da pele perioral, levando à incapacidade do doente em abrir a boca. Além dessas, outras lesões orais são muito frequentes. Todas as manifestações que surgem no tegumento cutâneo podem também ocorrer nos lábios. O epiteloma espinocelular se desenvolve tanto na língua como na mucosa jugal. Carlin e cols. Afirmam que dentre todas as lesões malignas da língua, o epidermoide aparece com incidência de 97%.


Manifestações oculares 

Paralelamente às manifestações cutâneas, surgem as oculares. A maioriadas alterações que ocorrem no XP surge nas áreas em que há exposição à radiação ultravileta. O tecido ocular, as pálpebras, conjuntiva e córnea recebem significativa quantidade de ultravioleta, servindo estes tecidos como proteção mecânica às estruturas mais internas: íris, cristalino e retina. O primeiro sintoma é a fotofobia, que confere ao paciente uma atitude particular: a cabeça se inclina para frente e para baixo no sentido de proteger os olhos da luz. Em seguida surgem hiperemia conjuntival, telangectasias e pontos pigmentados. A presença de lentigos oculares se faz na primeira década de vida e estes podem ser precursores de melanomas. Ectrópio, perda de cílios, inflamação conjuntival repetida e infecções podem ocorrer nestes pacientes, bem como a presença de pannus na córnea e epitelomas da conjuntiva. Finalmente, há maior propensão para o aparecimento de lesões malignas como carcinoma epidermoide (a forma mais comum), além de basiloides, carcinoma de células sebáceas e fibrossarcoma. Em pacientes negros as manifestações oculares podem ser mais severas, uma vez que a fotoproteção conferida pela melanina retarda tanto o aparecimento de sintomas cutâneos quanto o diagnóstico, sendo este realizado, em muitos casos, somente após a instalação de graves lesões oftalmológicas.


Manifestações neurológicas 

Os problemas neurológicos são observados em aproximadamente 20% dos pacientes com XP, mais comumente nos grupos XPA e XPD. A severidade desses sintomas é proporcional à sensibilidade dos fibroblastos à radiação ultravioleta. A deficiência mental variável é um dos mais frequentes quadros neurológicos. Enquanto algumas crianças e adultos portadores da doença são mentalmente aptos, outros apresentam sério comprometimento no desenvolvimento neuropsicomotor. Aproximadamente 15% dos pacientes com disfunções neurológicas apresentam esse quadro de “idiotia xerodérmica” associada à fotofobia intensa que se caracteriza por morte prematura dos neurônios do sistema nervoso central, retardo mental progressivo, ataxia cerebelar e perda auditiva. Para alguns autores, essa “idiotia xerodérmica” é considerada como sendo a síndrome de DeSanctis-Cacchione. Contudo, atualmente essa síndrome tem sido descrita como entidade nosológica própria, conforme relatado a seguir. Outras alterações neurológicas menos comuns incluem a presença de microencefalia, espasticidade, hiporreflexia ou arreflexia síndrome do neurônio motor ou desmielinização segmentar.


Síndrome de DeSanctis-Cacchione 

Descrita primeiramente em 1932 por dois médicos italianos, Carlo DeSanctis e Aldo Cacchione, é uma das variantes do XP, considerada como sua forma de apresentação mais severa. Entidade bastante rara em todo o mundo, com aproximadamente 60 casos descritos na literatura, engloba pacientes que apresentam alterações neurológicas (retardo mental e/ou ataxia cerebelar), hipogonadismo e atraso no desenvolvimento pôndero-estatural. Apresenta como fatores associados: microencefalia, retardo mental, fechamento prematuro das suturas cranianas, retardo no crescimento e desenvolvimento físico, surdez sensorial e encurtamento do tendão de Aquiles. A evolução é crônica e a morte advém das neoplasias e metástases múltiplas.


Outras alterações

O XP é uma enfermidade degenerativa multissistêmica com manifestações em qualquer órgão ou tecido. Há relatos de alterações ósseas, tais como descalcificação, osteomalacia e raquitismo dependente de vitamina D, principalmente em pacientes com formas graves e acometimento neurológico. Há também incremento no risco para o desenvolvimento de neoplasias como tumores cerebrais, gástricos e pulmonares, além de leucemias.


Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico do XP é fundamentalmente clínico, baseado em suas manifestações cutâneas, oculares e neurológicas. Uma história clínica minuciosa, com especial atenção a fatores como consanguineidade e idade do aparecimento dos sintomas, aliada ao exame físico completo orientam o médico para o diagnóstico.

Não há exames laboratoriais ou de imagem que confirmem a doença. Tais recursos servem somente como substrato de uma pesquisa mais detalhada que visa tanto o diagnóstico diferencial como a busca de alterações compatíveis com o XP. Em pacientes com declínio intelectual devem ser excluídas, através de testes de função tireoideana, as causas tratáveis de demência. Os estudos de imagem com tomografia computadorizada mostram uma atrofia difusa de córtex cerebral em pacientes com a doença. A ressonância magnética, por sua vez, descarta a presença de anormalidades cerebrais estruturais, tumores e malformações arteriovenosas.

O controle dos pacientes com XP baseia-se no diagnóstico precoce, na proteção adequada para exposição ao UV e detecção do aparecimento de lesões malignas na pele e outros órgãos, além de prevenção de sequelas oculares. Deve-se evitar desde a mais tenra idade a exposição ao sol, bem como a outros fatores que causem alterações no DNA. O paciente deverá ser encorajado a utilizar sempre filtro solar, bem como proteger mecanicamente a cútis, através do uso de roupas compridas, bonés, chapéus e óculos escuros. Deve-se atentar para eventuais alterações cutâneas, tanto na coloração quanto em sua textura, de modo a conseguir rastrear o mais precocemente possíveis neoplasias.

As lesões pré-malignas, bem como a ceratose actínica podem ser tratadas com 5-fluoracil tópico, que promove o esmaecimento das efélides e regressão das ceratoses. Gaspar e cols. fizeram o acompanhamento por 15 anos de um caso de XP por eles tratado com este fármaco, tendo comprovado a sua efetividade. As neoplasias cutâneas são tratadas do mesmo modo daquelas que acometem indivíduos não portadores do XP. As técnicas mais utilizadas são eletrodissecação, curetagem, radioterapia e, finalmente, a excisão cirúrgica. Tais técnicas podem ser utilizadas de modo isolado ou associadas, dependendo da extensão das lesões, bem como do seu grau de invasão.


A isotretinoína oral, administrada em altas doses, tem se mostrado efetiva na prevenção de neoplasias em indivíduos afetados com múltiplos cânceres cutâneos. Devido aos seus efeitos colaterais e sua toxicidade (insuficiência hepática, hiperlipidemia, efeitos teratogênicos, calcificação de ligamentos e tendões e fechamento prematuro das epífises), a droga é reservada para indivíduos com múltiplos cânceres cutâneos. Alguns pacientes podem ser beneficiados com doses menores do fármaco, com consequente redução em suas manifestações tóxicas.


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LFS - Síndrome de Li-Fraumeni

LFS - Síndrome de Li-Fraumeni

A Síndrome de Li-Fraumeni (LFS) é caracterizada por múltiplos tumores primários em crianças e adultos jovens, sendo predominantemente tumores de partes moles, osteossarcomas, câncer de mama, tumor de SNC, carcinoma adrenocortical e leucemia.

É uma síndrome rara de predisposição ao câncer com caráter autossômico dominante, alta penetrância e associada à mutação germinativa no gene TP53.

Incidência

Estão identificadas, na literatura científica, 264 mutações germinativas, descritas em 261 famílias ou indivíduos e depositadas no banco de dados de mutações em TP53 da International Agency for the Research on Cancer (IARC).

Espectro

Diversos tipos de tumores malignos estão diretamente relacionados à LFS, tais como: sarcoma, leucemia, tumores do sistema nervoso central, tumores adrenocorticaiscâncer de mama de início em idade jovem (Quadro 1). Devem-se relacionar, ainda, outros tipos de câncer que são frequentes em famílias com LFS, dentre eles melanoma, tumores de células germinativas, tumores gástricos e tumor de Wilms e outros em casos individuais de LFS, tumores de pâncreas, pulmão, laringe, próstata e linfomas

Quadro 1 - Tumores mais frequentemente associados a LFS e LFL (Li-Fraumeni Like)


Tumores infantis
Sarcoma
Leucemia
Tumor do sistema nervoso central
Câncer adrenocortical 
Tumor de Wilms
Tumores em adultos
Cancro de mama
Melanoma
Tumor de células germinativas
Câncer gástrico
Câncer de pâncreas
Câncer de pulmão
Câncer de laringe
Câncer de próstata
Linfoma


Penetrância | Idade

Estima-se que pacientes com LFS apresentam 50% de probabilidade de desenvolver tumores antes dos 30 anos de idade, comparados a 1% na população geral; e que 90% dos portadores desenvolvem cancro até aos 70 anos de idade. Portadores que desenvolveram tumor na infância são mais susceptíveis ao desenvolvimento de tumores secundários e têm risco aumentado para o desenvolvimento de múltiplos tumores primários. Esses pacientes apresentam maior incidência de tumores secundários em regiões tratadas por radioterapia e o risco aparenta ser maior em mulheres, em parte devido ao alto risco de desenvolvimento de cancro de mama.

Genes Envolvidos|Função

O papel do gene TP53 na regulação do ciclo celular e sua participação direta no controle da apoptose são determinantes, recebendo o gene por isso a denominação de “guardião do genoma”. O TP53 é um gene supressor de tumor localizado no braço curto do cromossomo 17, com o tamanho aproximado de 20 kb e contendo 11 Exões.  O TP53 codifica uma proteína de 393 aminoácidos que se liga a sequências específicas de DNA e age como fator de transcrição dos genes reguladores do crescimento celular. A proteína TP53 é rapidamente convertida a sua forma ativa sob a ação de fatores que destroem o DNA e está inativa na maior parte dos cânceres humanos devido a mutações no gene TP53 ou por ação de proteínas virais. A perda de heterozigose leva à inativação do alelo selvagem nos tumores LFS, assim como em tumores esporádicos.



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Síndrome de Rett

Síndrome de Rett



Sintomas
O diagnóstico da Síndrome de Rett é baseado na avaliação clínica do paciente e deve ser feito por um profissional habilitado para tal, como neurologistas e pediatras. 

Este diagnóstico é feito com base nos critérios diagnósticos estabelecidos, que consistem em:

Critérios necessários (presentes em todas as pacientes): desenvolvimento pré-natal (antes do nascimento) e perinatal (pouco tempo depois de nascer) aparentemente normal; 

desenvolvimento psicomotor normal até os 6 meses de idade; 

perímetro cefálico (circunferência da cabeça) normal ao nascimento; 

desaceleração do perímetro cefálico após 6/7 meses de idade; perda do uso propositado das mãos; 

movimentos manuais estereotipados (torcer, apertar, agitar, esfregar, bater palmas, "lavar as mãos" ou levá-las à boca); 

afastamento do convívio social, perda de palavras aprendidas, prejuízos na compreensão, raciocínio e comunicação. 

Critérios de suporte (presentes em algumas pacientes): 
distúrbios respiratórios em vigília (hiperventilação, 
apneia, expulsão forçada de ar e saliva, aerofagia); 

bruxismo (ranger os dentes); 
distúrbios do sono; 
tônus muscular anormal; 
distúrbios vasomotores periféricos (pés e mãos frios ou cianóticos); 
cifose/escoliose progressiva; 
retardo no crescimento; 
pés e mãos pequenos e finos. 

Critérios de exclusão (ausentes nas pacientes): 
órgãos aumentados (organomegalia) ou outro sinal de doenças de depósito; 
retinopatia, atrofia óptica e catarata; evidência de dano cerebral antes ou após o nascimento; 
presença de doença metabólica ou outra doença neurológica progressiva; 
doença neurológica resultante de infecção grave ou trauma craniano. 

Evolução clínica

De acordo com a evolução e sintomas, a Síndrome de Rett é classificada em duas formas:


  • Clássica
  • Atípica


Na forma clássica, o quadro clínico evolui em quatro estágios definidos:

Estágio 1 - de 6 a 18 meses de idade. ocorre desaceleração do perímetro cefálico (reflexo do prejuízo no desenvolvimento do sistema nervoso central); alteração do tônus muscular - hipotonia(às vezes parece "molinha"); a criança interage pouco (muitas são descritas como crianças "calmas") e perde o interesse por brinquedos. Neste estágio, os primeiros sintomas da doença estão surgindo, mas muitas vezes nem são percebidos pelos pais (especialmente se são "marinheiros de primeira viagem") ou pelos médicos (muitos deles desconhecem a Síndrome de Rett).

Estágio 2 - de 2 a 4 anos de idade. ocorre regressão do desenvolvimento; inicia-se a perda da fala e do uso intencional das mãos, que é substituído pelas estereotipias manuais; ocorrem também distúrbios respiratórios, distúrbios do sono (acordam à noite com ataques de risos ou gritos); manifestações de comportamento autístico. 

Estágio 3 - de 4 a 10 anos de idade. a regressão é severa neste estágio e os problemas motores, crises convulsivas e escoliose são sintomas marcantes. há melhora no que diz respeito à interação social e comunicação (o contato visual melhora), elas tornam-se mais tranquilas e as características autísticas diminuem. 

Estágio 4 - a partir dos 10 anos de idade. caracterizado pela redução da mobilidade, neste estágio muitas pacientes perdem completamente a capacidade de andar (estágio 4-A), embora algumas nunca tenham adquirido esta habilidade (estágio 4-B); escoliose, rigidez muscular e distúrbios vasomotores periféricos são sintomas marcantes; os movimentos manuais involuntários diminuem em frequência e intensidade; a puberdade ocorre na época esperada na maioria das meninas. Nas formas atípicas, nem todos os sintomas estão presentes e os estágios clínicos podem surgir em idade bem diferente da esperada.

Algumas doenças neurológicas compartilham sintomas com a Síndrome de Rett e isto pode dificultar o diagnóstico clínico especialmente nos primeiros estágios da forma clássica (ou no caso de formas atípicas). Quando os primeiros sintomas da Síndrome de Rett estão surgindo, muitas pacientes são diagnosticadas de forma equivocada como autistas, por exemplo. É importante que os profissionais de saúde estejam atualizados e conheçam sobre a Síndrome de Rett para que sejam capazes de realizar o diagnóstico diferencial. Uma vez que o diagnóstico precoce facilita o estabelecimento de uma estratégia terapêutica adequada, a INFORMAÇÃO É FUNDAMENTAL.

Embora ainda não tenha sido descoberta a cura da Síndrome de Rett, as pacientes que são acompanhadas de forma adequada podem ter uma vida melhor e mais feliz. E TAMBÉM VALE LEMBRAR: a Síndrome de Rett não restringe a expectativa de vida das pacientes.

Causa. Como falamos no título "Histórico da Síndrome de Rett", após a década de 80 foi iniciada a busca pela causa da Síndrome de Rett. Várias hipóteses foram propostas para explicar a doença, mas quando vários casos familiares (dentro da mesma família) foram relatados, ficou claro que a doença tinha uma causa genética.

Na década de 90, os pesquisadores estiveram empenhados em descobrir então qual era o gene (um ou vários?) e, no ano de 1999, a equipe chefiada pela Dra. Huda Zoghbi descobriu que a Síndrome de Rett é causada por mutações (alterações) em um gene localizado no cromossomo X. Este gene, chamado MECP2 (do inglês methyl-CpG-binding protein 2) - e que nós pronunciamos "mec-pê-dois" - é um gene muito importante no controle do funcionamento de outros genes, desde o desenvolvimento embrionário. Ele codifica (produz) uma proteína (chamada MECP2) que controla a expressão de vários genes importantes para o desenvolvimento dos neurônios (ou seja, quando e onde estes genes são expressos) em todos os vertebrados. Fazendo uma analogia e simplificando (bastante), a MECP2 funciona como um dimmer (aquele botão que regula a intensidade da luz) e então podemos explicar a causa da Síndrome de Rett da seguinte forma: nas pacientes afetadas pela Síndrome de Rett, a MECP2 não é capaz de funcionar corretamente e todo o desenvolvimento dos neurônios do embrião fica comprometido.

É importante lembrar que mutações no DNA ocorrem em todas as nossa células, ao longo de nossas vidas, todos os dias, sem que possamos saber ou controlar. Portanto, os pais e mães de pacientes afetadas pela Síndrome de Rett, assim como pais de pacientes afetados por qualquer doença de origem genética, JAMAIS DEVEM SE SENTIR CULPADOS.

Uma ponta de grande esperança. Em 23 de fevereiro de 2007 foi publicado um artigo considerado um dos marcos recentes na pesquisa sobre a Síndrome de Rett. O artigo relata os resultados da pesquisa chefiada pelo Dr. Adrian Bird, que demonstrou que os sintomas da Síndrome de Rett são reversíveis em camundongos. O trabalho consistiu, resumidamente, no uso de uma linhagem de camundongos geneticamente modificada, que teve um trecho de DNA introduzido na região do gene MECP2, o qual teve sua expressão bloqueada, e por consequência os animais apresentavam sintomas da Síndrome de Rett. A remoção deste trecho de DNA foi induzida quando os animais receberam injeções de uma droga chamada tamoxifeno e após algumas semanas eles deixaram de apresentar os sintomas.

Estes resultados causaram grande furor entre os pais de pacientes, pois muitos pensaram que havia sido descoberta uma droga para curar a doença. Na verdade, o tamoxifeno fez parte do protocolo experimental do estudo e não é uma cura.

Assim, o que este trabalho evidenciou foi a reversibilidade dos sintomas da doença em modelos animais. Este foi um estudo preliminar e por isso requer aprofundamento. Até chegar às pesquisas com pacientes será uma longa caminhada. Apesar disso, os resultados obtidos pelo grupo de pesquisa indicam que há uma esperança para o desenvolvimento de terapias que possam restabelecer algumas das habilidades das pacientes e, talvez, levar à cura da Síndrome de Rett.


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Neoplasias Colorretal Hereditário sem Polipose - Câncer Colorretal Hereditário não Poliposo

Neoplasias Colorretal Hereditário sem Polipose - Câncer Colorretal Hereditário não Poliposo

HNPCCCâncer Colorretal Hereditário não Poliposo - é uma desordem genética, autossômica dominante. Tal deformação resulta em mutações em genes do DNA que fazem reparo do DNA type mismatch. Afeta um indivíduo em 500 a 2 000.

Série:

Indivíduos com esta deformação possuem 80% a 90% de ter Câncer Colorretal durante toda a vida, bem como aumenta drasticamente o risco de Câncer do Endométrio, ovário, estômago, intestino delgado, vesícula biliar, na parte superior do aparelho urinário, cérebro e pele.

Neoplasias Colorretal Hereditário sem Polipose - Câncer Colorretal Hereditário não Poliposo

Câncer Colorretal Metastático

Câncer de Colo do Útero ou Câncer Cervical

Câncer de Pênis

Câncer de Mama Triplo-Negativo

Nódulo na Glande - Glândulas de Tyson

Balanite - Balanitis

Câncer de Testículo

No caso do Câncer Colorretal, a malignidade não origina-se de pólipos, como é comum em outros casos de Câncer Colorretal. Acredita-se que aproximadamente cerca de 5% dos casos de Câncer Colorretal sejam causados por esta deformação. Indivíduos são diagnosticados, em média, aos 44 anos de idade. Em comparação, a idade média dos pacientes diagnosticados com Câncer Colorretal em geral é de 64 anos.

Não há um tratamento direto que cure HNPCC. Indivíduos com parentes com esta deformação podem optar por fazer um exame genético para comprovar a presença desta deformação. Indivíduos com alto risco de possuirem HNPCC incluem aqueles com parentes próximos (pais e irmãos) com a deformação, ou três ou mais parentes de sangue (afetando duas ou mais gerações familiares) afetados por Câncer Colorretal. Monitoramento rigoroso (colonoscopia anualmente, por exemplo) e cirurgia é utilizado para detectar e tratar cancros.

Suscetibilidade hereditária ao Câncer

A suscetibilidade hereditária pode ser claramente observada nas síndromes raras de câncer, onde fatores genéticos desempenham um papel preponderante. Estas síndromes podem ser identificadas pela presença, entre parentes próximos, de cânceres raros na população em geral (ex: retinoblastoma, neoplasia endócrina múltipla tipo 2A), ou devido à possibilidade de identificação se um padrão familiar de herança conhecido (ex: polipose adenomatosa familiar).

As observações epidemiológicas sobre a idade de manifestação mais precoce e o desenvolvimento de tumores bilaterais nas síndromes pediátricas de câncer, levaram Knudson a propor o modelo dos dois eventos para o desenvolvimento do câncer (1). De acordo com este modelo, é necessário haver inativação dos dois alelos de um gene supressor de tumor, como o gene do retinoblastoma (RB1), para que ocorra o desenvolvimento do câncer. Nos casos esporádicos de retinoblastoma, a inativação dos dois alelos do gene RB1 ocorre nas células somáticas (retinoblastos). Nos casos hereditários, a inativação (mutação) do primeiro alelo RB1 ocorre na linhagem germinativa, podendo ser herdado de um dos pais ou ser uma mutação nova. É necessário, no entanto, que ocorra a inativação somática (mutação ou perda de heterozigosidade) do segundo alelo para haver a manifestação da doença.

Alguns princípios gerais podem ser aplicados às síndromes hereditárias de câncer. Geralmente estão associadas a mutações germinativas em genes supressores de tumor. Mutações germinativas em proto-oncogenes são raras, como no caso da neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2), associada ao proto-oncogene RET. Independente da classe de genes envolvidos, uma pessoa heterozigota (portadora) para uma mutação germinativa transmite o alelo mutado para 50% de seus filhos de ambos os sexos. Muitas síndromes hereditárias de câncer apresentam penetrância incompleta, ou seja, nem todos as pessoas portadoras do alelo mutante desenvolvem o câncer. A heterogeneidade genética também é comum, dificultando o seguimento clínico dos portadores. Na síndrome HNPCC, por exemplo, além de haver associação com pelo menos cinco genes envolvidos em reparo de DNA (MSH2, MLH1, MSH6, PMS1 e PMS2), a inativação de um destes genes pode resultar em grande variedade fenotípica entre indivíduos.

Atualmente, testes genéticos permitem identificar mutações em genes supressores de tumor associados, por exemplo, ao câncer hereditário de mama e/ou ovário (BRCA1 e BRCA2), ao câncer colorretal hereditário não poliposo (MSH2 e MLH1), à polipose adenomatosa familiar (APC) e à Síndrome de Li-Fraumeni e suas formas variantes (TP53). Os testes genéticos podem servir para diagnóstico molecular de uma síndrome hereditária em indivíduos afetados ou para identificar indivíduos heterozigotos (portadores) assintomáticos na família.

HNPCC

Câncer Colorretal  (CCR) é o quinto tipo de câncer mais freqüente no Brasil. Estima-se que o CCR hereditário represente 10% a 15% de todos os casos diagnosticados. Duas síndromes hereditárias de câncer colorretal têm sido mais investigadas: a Polipose Adenomatosa Familiar (FAP) e a Síndrome de Câncer Colorretal Hereditário não Poliposo (HNPCC). Enquanto a FAP é uma síndrome rara, representando menos de 1% dos casos de CCR diagnosticados, a síndrome HNPCC é a de maior incidência.

A Síndrome HNPCC é uma condição autossômica dominante associada a mutações em, pelo menos, cinco genes de reparo de DNA: MSH2, MSH6, MLH1, PMS1 e PMS2 (2, 3). O risco cumulativo para câncer colorretal (CCR) em indivíduos heterozigotos para mutações nos genes de predisposição à HNPCC é de aproximadamente 80% aos 80 anos. Dependendo da ausência ou presença de tumores extra-colônicos, a síndrome HNPCC tem sido classificada como Lynch I e II, respectivamente. O Câncer de Endométrio é a neoplasia extra-colônica mais frequentemente associada à síndrome de Lynch II, apresentando um risco cumulativo de 42% aos 80 anos. Além disto, o risco cumulativo para o desenvolvimento de outros tumores extra-colônicos, como os cânceres de estômago, de ovários e dos tratos biliar e urinário (19%, 9%, 18% e 10%, respectivamente), é maior do que o esperado ao acaso. Estima-se que nas famílias com a Síndrome de Lynch I, 40% apresente mutações em MSH2 e 30% em MLH1 (2). Mais de 100 mutações já foram descritas em MHS2, predominando substituições e pequenas deleções (4, 5).

Testes de DNA estão disponíveis para detecção de mutações nos genes MSH2 e MLH1, associados a até 90% dos casos de HNPCC.

Critérios para indicação de testes genéticos para os genes MSH2 e MLH1

A Síndrome de Lynch I, ou HNPCC clássica, apresenta critérios bem definidos estabelecidos por um Grupo Colaborativo Internacional em HNPCC (Critérios de Amsterdam I, 6). Critérios menos restritivos têm sido propostos por diferentes grupos, como os critérios de Bethesda (7) e os do ICG-HNPCC (Critérios de Amsterdam II, 8), considerando a presença de tumores extra-colônicos (Síndrome de Lynch II). Os critérios sugeridos para realização de testes moleculares para detecção de alterações nos genes MSH2 e/ou MLH1 são os seguintes:

• Critérios de Amsterdã I

  • 1. CCR histologicamente confirmado em, pelo menos, três parentes, um dos quais parente em primeiro grau dos outros dois; 
  • 2. Pelo menos duas gerações sucessivas diagnosticadas com CCR;
  • 3. Pelo menos um caso de CCR diagnosticado antes dos 50 anos, e 
  • 4. Exclusão clínica de FAP.

• Critérios de Amsterdã II
Famílias com pelo menos três parentes apresentando um dos cânceres associados a HNPCC (CCR, câncer de endométrio, intestino delgado, ureter ou pelve renal), sendo que:

  • 5. Um deve ser parente em primeiro grau dos outros dois;
  • 6. Pelo menos duas gerações sucessivas devam ser afetadas;
  • 7. Pelo menos um caso de câncer deve ser diagnosticado antes dos 50 anos de idade;
  • 8. O diagnóstico de polipose adenomatosa familiar deve ser excluído nos casos de CCR;
  • 9. Os tumores devem ser verificados por exame anátomo-patológico.


• Critérios de Bethesda*

  • 1. Indivíduos com CCR em famílias que preenchem os critérios de Amsterdã; ou
  • 2. Indivíduos com dois cânceres associados ao HNPCC, incluindo CCR sincrônico e metacrônico ou cânceres extra-colônicos (endométrio, ovário, estômago, intestino delgado, hepatobiliar, pelve renal ou ureter); ou
  • 3. Indivíduos com CCR e com um parente em primeiro grau com CCR ou com câncer extra-colônico associado ao HNPCC e/ou com adenoma colorretal; um dos cânceres diagnosticados antes dos 45 anos, e o adenoma diagnosticado antes dos 40 anos; ou
  • 4. Indivíduos com CCR ou câncer de endométrio diagnosticado antes dos 45 anos; ou
  • 5. Indivíduos com CCR no cólon direito com padrão histopatológico indiferenciado, diagnosticado antes dos 45 anos; ou
  • 6. Indivíduos com CCR com padrão histopatológico em anel de sinete, diagnosticado antes dos 45 anos; ou
  • 7. Indivíduos com adenoma diagnosticado antes dos 40 anos.

*A análise de MSI (instabilidade em microssatélites) é recomendável antes do encaminhamento para análise de mutações em MSH2 e MLH1.

Detecção precoce e prevenção

Devido ao espectro de tumores presentes nas famílias HNPCC, entre as medidas recomendadas para acompanhamento clínico de portadores assintomáticos destacam-se a colonoscopia a partir dos 20-25 anos a cada 1-3 anos, determinação de níveis de CA-125 e ultra-som pélvico e transvaginal, anualmente, a partir dos 25-35 anos para avaliação de endométrio e ovários. Outros métodos diagnósticos poderão ser discutidos dependendo dos tipos de tumores presentes na família (9). A recomendação de colectomia profilática para pessoas assintomáticas com mutação detectada é complexa e controversa, principalmente devido fato de que nem todos os indivíduos com mutação detectada desenvolvem CCR ao longo da vida, havendo um risco estimado de 70%. Além disto, há um risco de 12% de desenvolver câncer colorretal 4-6 anos após a colectomia e mortalidade de aproximadamente 1% devido à cirurgia (10).

A quimioprevenção e a modificação da dieta são opções a serem consideradas para pessoas com risco aumentado para CCR. Evidências laboratoriais, clínicas e epidemiológicas sugerem que uma dieta rica em cálcio pode reduzir o risco de recorrência de adenomas colorretais, provavelmente pelo efeito antiproliferativo sobre as células colônicas (11). Outros agentes investigados na quimioprevenção são a aspirina e os inibidores de Cox-2 (12). Diversos estudos epidemiológicos têm associado uma dieta rica em fibras (20-30 g/dia de acordo com recomendações do National Cancer Institute, Estados Unidos) com a diminuição do risco para câncer de cólon (13).

Aconselhamento genético

Considerando uma série de questões éticas, legais, sociais e psicológicas dos testes genéticos de predisposição ao câncer, é fundamental distinguir entre o benefício presumido e o benefício estabelecido para as pessoas que se submetem a estes testes. Os documentos resultantes do trabalho realizado pelo Ethical, Legal and Social Implications (ELSI) Branch do National Center for Human Genome Research orientam o aconselhamento genético de famílias, uma vez que discutem tanto os benefícios presumidos quanto as possíveis limitações das diversas intervenções clínicas (mamografia, cirurgias profiláticas, auto-exame de mamas, colonoscopia) recomendadas para avaliação de portadores.

Independente da realização de testes genéticos, o aconselhamento genético pode beneficiar os indivíduos e familiares preocupados com o risco de câncer, na medida que oferece informações e suporte para a adesão a programas de acompanhamento clínico e adoção de medidas preventivas.

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Referências bibliográficas
1. Knudson AG (1971) Mutation and cancer: statistical study of retinoblastoma. Proc Natl Acad Sci USA 68: 820-823.
2. Marra G, Boland CR (1995) Hereditary nonpolyposis colorectal cancer: the syndrome, the genes, and historical perspectives. J Natl Cancer Inst 87: 1114-1125.
3. Miyaki M, Konishi M, Tanaka K, et al (1997) Germline mutation of MSH6 as the cause of hereditary nonpolyposis colorectal cancer. Nature Genet 17: 271-272.
4. Human Gene Mutation Database (http://www.uwcm.ac.uk/uwcm/mg/hgmd0.html).
5.Corvello CM, Bevilacqua RAU, Rossi BM, Simpson AJG (1999) A novel germline mutation at exon 7 of the MSH2 gene (1249delG) in a large HNPCC Brazilian kindred. Hum Mut 13: 506 (http://www.interscience.wiley.com/jpages/1059-7794).
6. Vasen HF, Mecklin J-P, Meeera Khan P, Lynch HT (1991) The International Collaborative Group on Hereditary Nonpolyposis Colorectal Cancer (ICG-HNPCC). Dis Colon Rectum 34: 424-425.
7. Rodriguez-Bigas MA, Boland CR, Hamilton SR et al (1997) A National Cancer Institute Workshop on Hereditary Nonpolyposis Colorectal Cancer Syndrome: meeting highlights and Bethesda guidelines. J. Nat. Cancer Inst. 89: 1758-1762.
8. Vasen HF, Watson P, Mecklin J-P, Lynch HT (1999) New clinical criteria for Hereditary Nonpolyposis Colorectal Cancer (HNPCC, Lynch syndrome) proposed by the International Collaborative Group on HNPCC. Gastroenterology 116: 1453-1456.
9. Burke W, Petersen G, Lynch P et al (1997) Recommendations for follow-up care of individuals with an inherited predisposition to cancer. I. Hereditary nonpolyposis colorectal cancer. JAMA 277: 915-919.
10. Rodriguez-Bigas MA (1996) Prophylactic colectomy for gene carriers in hereditary nonpolyposis colorectal cancer. Cancer 78: 199-201.
11. Baron JA, Beach M, Mandel JS, et al (1999) Calcium supplements for the prevention of colorectal adenomas. New Eng J Med 340: 101-107, 1999.
12. Kelloff GJ, Hawk ET, Crowell JA et al (1996) Strategies for identification and clinical evaluation of promising chemopreventive agents. Oncology 10: 1471-1480.
13. Vargas PA, Alberts DS (1992) Primary prevention of colorectal cancer through dietary modification. Cancer Suppl 70: 1229-123.

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